Seguindo com o tema sobre sobre nossas reações emocionais frente às mudanças intensas provocadas pela pandemia da COVID-19, vamos abordar aqui algumas estratégias para administrar melhorar nossas emoções e, assim, reduzir o estresse e a ansiedade específicos desta situação. Recebi muitos questionamentos sobre este tema. Este assunto foi abordado no seguinte vídeo, feitos a pedido dos alunos envolvidos na SEFIS/UNICAMP.
Quem, como eu, prefere ler do que assistir ao vídeo, segue o texto sobre o assunto. Este texto é inspirado na “Cartilha para enfrentamento do estresse em tempos de pandemia” ¹ – recomendo a leitura para os profissionais da saúde! Este trabalho, realizado por pesquisadores da PUC Campinas e PUCRS, propõe respostas às três principais queixas da população ouvida:

Importante lembrar que esse desconforto emocional é natural e esperado. Não vamos classificar este sofrimento como doença neste momento. Nossa preocupação é de que essas emoções sejam bem administradas agora a fim de evitar doenças emocionais crônicas no futuro. Psicoterapia, grupos de apoio, meditação, yoga, pratica esportiva e seguir as nossas dicas irão ajudar neste processo. Porém, convém esperar uns seis meses a partir do surgimento de sintomas que prejudiquem sua qualidade de vida antes de pensar em intervenção medicamentosa!
Dar conta da minha vida – sentir-me competente e eficaz no que faço
Para a primeira das três dificuldades apontadas, o recomendado é evitar ao máximo comportamentos que envolvam respostas do tipo DESAMPARO e FUGA. Ou seja, certa reação depressiva inicial é normal e até esperada, mas cultivar exclusivamente o sentimento de DESAMPARO por muito tempo irá tornar o quadro depressivo em algo crônico. Você pode sentir que alcançou o limite da sua capacidade, adiando ou desistindo de procurar soluções para os problemas. Isto irá gerar sentimentos de desamparo e de desvalorização pessoal. Algumas vezes você pode sentir pânico. Caso essas reações persistam por muito tempo, elas podem piorar ou levar à depressão.
Também não vai ajudar você passar tempo demais em atividades de FUGA da realidade e de seus problemas tais como navegar em redes sociais ou jogos eletrônicos – você até pode encontrar conforto nestas atividades, nosso problema é se você passar mais de duas horas diárias usando telas para fugir daquilo que precisa ser feito.

Sugestões: Caso você perceba que está com dificuldade para seguir seu cronograma e resolver suas tarefas, evite uma postura julgadora ou crítica consigo mesmo, afinal é uma longa fase que demanda diferentes respostas de adaptação para todos e em diferentes momentos. Analise seu dia-a-dia, converse com pessoas que conheçam você e em quem você confie e tente entender os motivos que fizeram você não seguir seu planejamento, buscando alternativas para os próximos dias.
Com uma boa autoavaliação, talvez você descubra que gastou muito tempo e energia lendo notícias ou discutindo política nas redes sociais – será que não seria o caso de diminuir o tempo dedicado a este tipo de atividade em nome de preservar a sua saúde mental? Ou será que você passou tempo demais com aquele jogo novo? Então, sempre evitando se recriminar, que tal buscar um novo desenho de sua rotina e substituir estes ladrões de energia por atividades construtivas, que possam tornar sua vida melhor?
Encontrar informações, apoio emocional de pessoas queridas, e construir soluções práticas para o cotidiano (já vamos falar mais sobre isso) são a melhor resposta, porque não só lhe trarão soluções para seus problemas, como também irão melhorar a sua autoestima, dando aquela sensação de segurança interna que ajuda a enfrentar o que vier pela frente.

Relacionamentos – sentir que sou aceito, pertencer aos grupos sociais significativos para mim
Estamos ouvindo muitas queixas de solidão. As pessoas estão sentindo falta do convívio com familiares, colegas de trabalho, amigos da faculdade. Sentem falta de um abraço, de partilhar um café, essas pequenas coisas que tornavam nossos dias mais cheios de carinho e alegria. Pode também acontecer de a convivência intensa e forçada com familiares ou colegas de pensão/república possa gerar conflitos e discussões, muitas vezes por problemas menores como quem vai lavar a louça ou levar o lixo na rua.

Novamente, é importante que você escolha evitar ao máximo comportamentos que envolvam respostas do tipo DESAMPARO e FUGA. Porque, sim, podemos escolher a direção que daremos às nossas reações emocionais. Perceber o problema e dialogar sobre ele é necessário. O que não vai ajudar são as cenas intensas, cheias de agressões impulsionadas por crises de autopiedade.
Procurar se isolar ao perceber que pessoas próximas não lhe apoiam, e deixar de se comprometer com decisões conjuntas não são boas formas de lidar com a situação. Elas podem trazer um alívio momentâneo, porém, a longo prazo, as consequências serão ruins, tanto para as relações, quanto por gerar um sentimento de solidão e desamparo.
Também não vai ajudar apenas lamentar o distanciamento das pessoas queridas sem tomar iniciativas de aproximação, troca e diálogo, mesmo que seja pelas redes sociais.
Sugestões: Caso você esteja se sentindo assim, busque acolher esses sentimentos, sem julgamentos para com os outros ou para com você mesmo. Lembre-se de que todos estamos vivendo um momento de grande estresse – ou seja, em algum momento, todos teremos que enfrentar falhas em nosso autocontrole. Tente, inicialmente, entender o que você sente e considere a possibilidade de que outras pessoas ao seu redor podem estar se sentindo como você ou podem estar confusas como você. O fundamental é lembrar que estas dificuldades não vão durar para sempre. Então, não faz sentido romper relacionamentos ou magoar as pessoas por algo efêmero. Este é o momento de desenvolver habilidades para lidar com os desafios ou relembrar estratégias que você já utilizou em outros momentos difíceis. Vamos manter o diálogo franco, aberto, com respeito pelo outro e pelas dores e dificuldades do outro.

E quando você sentir saudade, busque conversar com aquela pessoa querida, independente se é sempre você quem toma a iniciativa. Todos precisamos de suporte social, agora mais do que nunca. E vamos também tentar olhar para a solidão do outro. Será que sua avó não está precisando de uma ligação sua? Será que seu colega está precisando de ajuda?
E, novamente, solucionar estas situações irá melhorar a confiança que você tem em você mesmo, garantindo a necessária sensação de segurança interna, tão importante para nossa saúde mental.
Agir como quero, de acordo com o que eu acredito.
Vamos concordar, estamos enfrentando muitas restrições. E nem precisamos considerar uma situação de quarentena ou lockdown! Só a necessidade do uso contínuo de máscaras fora de casa, restrições de horários de funcionamento, necessidade de trabalhar ou estudar via internet, precisar lavar todas as embalagens, trocar de calçados quando chegamos da rua… ufa!
Sabe o que não funciona para nos sentirmos melhor? Agir como uma criança birrenta e opositora. Pois é… isso mesmo! Alguém precisava falar isso para você, né? Se este não for o seu caso, por favor, mostre este texto para quem necessita se conscientizar de que está mostrando um comportamento irracional.
Então vamos combinar: todos vamos nos dedicar ao diálogo, a escutar o outro, a tentar entender as necessidades do outro. Vamos evitar discussões e brigas. Isso apenas tende a aumentar o estresse e a diminuir a colaboração de todos.
É normal sentir raiva, porém cultivar a raiva através da manutenção de pensamentos negativos repetitivos, como ficar relembrar mágoas, não são atitudes que ajudarão neste momento. A dedicação a identificar culpados pode gerar ressentimentos. Pensamentos negativos e pessimismo, além de levarem à falta de ação, podem desencadear consequências negativas para a sua saúde física e mental, e das pessoas à sua volta. Nossa vida não precisa ser um ringue!

Sugestões: Caso você esteja se sentindo muito oprimida (o), contrariada(o) ou tendo pensamentos constantes de raiva ou mágoa, preste atenção em que momentos eles aparecem. Encontre uma forma de tolerar e administrar esse desconforto, tendo em mente que pensamentos e sentimentos podem atrapalhar a nossa compreensão da realidade. A melhor solução é buscar facilitar a acomodação da rotina neste momento de crise e buscar conversar e negociar com as pessoas próximas essas soluções – sempre objetivando o interesse de todos.

Por outro lado, o extremo oposto – um agir submisso – também não é saudável. E pode até ser perigoso, como em situações de abusos e violência doméstica. Algumas vezes, é saudável falar “não”. E, para isso, não é necessário criar uma cena, basta lembrar para a outra pessoa que aquela situação, de algum modo, está prejudicando a você. E, caso o outro seja violento, buscar uma rede de apoio, seja familiar, comunitária, ou seja telefonando para o 190.

A melhor forma de solucionar conflitos é sempre o diálogo, a negociação. Vamos todos buscar a opção em que todos saiam ganhando de alguma forma – um cede um pouquinho, o outro também cede um pouquinho para, no final, todos conseguirem uma parte daquilo que valorizam e consideram importante.
Por favor, coloque suas dúvidas, sugestões e comentários aí abaixo! Obrigada!
¹ Weide, J. N., Vicentini, E. C. C., Araujo, M. F., Machado,W. L., & Enumo, S. R. F. (2020). Cartilha para enfrentamento do estresse em tempos de pandemia. Porto Alegre: PUCRS/ Campinas: PUC-Campinas.